PROJETO FAZ COM QUE HORTALIÇAS INVADAM AS LAJES DE PARAISÓPOLIS

Programa completa um ano e nasceu da parceria da ONG STOP Hunger com a Associação das Mulheres e transformou o espaço da comunidade

Há um ano, o projeto Horta na Laje nasceu dentro de um depósito marrom e sujo em Paraisópolis, zona sul de São Paulo e a oitava maior favela do país. Hoje, o espaço é composto por vários legumes, verduras e frutas, e decorado com grafites coloridos e guarda-chuvas pendurados em um varal — em referência a rua da cidade de Águeda, em Portugal.

Elizandra Cerqueira, presidente da Associação de Mulheres de Paraisópolis, se juntou a ONG STOP Hunger para que as mulheres que representam mais da metade dos moradores da comunidade, pudessem produzir hortaliças em vasos.

O projeto funciona de uma forma simples: as mulheres se inscrevem no “Horta na Laje” e aprendem como cultivar hortaliças. Elas são assessoradas mensalmente por um técnico da União dos Moradores de Paraisópolis e, a cada dois meses, por dois doutores em agronomia da Unesp (Universidade Estadual Paulista). “Mais de 1.000 mulheres já foram beneficiadas”, conta Davi Barreto, superintendente do Instituto STOP Hunger Brasil. “E nós ainda temos um grupo de WhatsApp para acompanhar todo o processo de cultivo”.

O “Horta na Laje” retomou uma iniciativa antiga da associação: o Bistrô Mãos de Maria. Parado há anos por questões financeiras, foi reaberto em maio do ano passado. Todas as mulheres que trabalham no restaurante foram capacitadas pelo projeto. “São independentes e conduzem a própria família”, descreve Cerqueira — 23% das famílias de Paraisópolis são sustentadas por mulheres, informa a associação.

O bistrô funciona de segunda a sábado. “Temos show aqui de vez em quando, então o lugar se tornou um ponto de encontro”, relata Elizandra. Ela alerta que ainda há preconceito com a comunidade, mas que aos poucos isso tem sido deixado de lado. “Interessados em conhecer o espaço vem de todo lugar, inclusive da Suíça, China e Rússia”.

Sustentabilidade

 “Nós queremos tornar Paraisópolis uma comunidade sustentável”, diz Barreto. “Se alguma família aqui da favela for montar uma horta na laje hoje, o custo será mínimo. Isso também é algo sustentável”, acrescenta Elizandra. “E as pessoas podem vir aqui buscar as mudas.”

A horta traz outros benefícios: a agricultura na laje ajuda a diminui a temperatura da casa. Em alguns casos, a diferença é de 3 a 4 graus a menos. Além disso, o telhado verde pode controlar enchentes. “É mais uma forma de sustentabilidade que o projeto leva consigo”, comemora Barreto.

Prêmio

O sucesso do projeto foi tanto que, há quatro meses, Elizandra foi à Paris, na França, para receber um prêmio pelo impacto que o “Horta na laje” teve na favela de Paraisópolis. A presidente da associação foi escolhida para representar o Brasil e disputou com mais quatro mulheres dos Estados Unidos, da França, da África do Sul, da Etiópia. “Eu estava confiante, porque senti a expectativa das pessoas e o nosso projeto de fato é muito legal”, sorri. “Valeu a pena. Foi uma confirmação de que estamos no caminho certo ela. Nós temos muitas mulheres hoje comandando famílias, sendo empreendedoras, sendo mulheres. E eu representei isso”, finaliza.

“Culturalmente, o Brasil é solidário, mas tem muito a aprender. E esse projeto é uma forma de mostrar que é possível. É legal para ver como uniu as pessoas e a evolução que teve desde o início”, diz Barreto — este foi o segundo prêmio que a STOP Hunger recebeu desde que atua no Brasil (2015).

Elizandra conclui que lugar da mulher “é onde ela quiser estar”. A reportagem, então, questiona onde ela se vê daqui cinco anos. Ela é taxativa: “quero estar em todas as lajes de Paraisópolis”. Fonte: R7




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